quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

E pra você, o que é diversidade?


Eu já comentei sobre isso, mas quero falar de novo.  A Índia é sim um país que enfrenta diversas dificuldades, a sociedade ainda é cheia de cicatrizes deixadas pelo sistema de castas e a miséria, ao contrario do nosso país, não está escondida. Andar pela cidade, desviando das pessoas que moram nas ruas, (literalmente, dormindo, comendo e vivendo jogados na sarjeta)  com toda a família, tomando cuidado para não tropeçar nas crianças e bebes que vivem nas calçadas e que, quando muito, estão vestidas com alguma camiseta velha ou enrolados em cobertores, as vezes me fazem pensar que lugar pior que esse não existe.

Mas ai, me lembro de que no Brasil também é assim, a única diferença é que estão todos escondidos nas favelas ou morrendo de sede no nordeste. Eu sempre soube disso, e sempre me incomodou. Mas infelizmente, para mim, foi preciso atravessar o mundo e ter essa realidade me cercando todo os dias, para que eu pudesse realmente entender que algumas horas de serviço voluntário por semana no Brasil e reciclar meu lixo não é, nem de longe, o que vai fazer essa situação mudar. Só o fato de termos casa, educação, e comida todo os dias, nos da um poder de ajudar muito maior do que podemos imaginar.

Hoje indo para o trabalho passei por mais uma das cenas que me marcam todos os dias. Três crianças, (impossível de dizer a idade, são todos muito magros e pequenos) estavam  “na casa deles” em baixo de uma tenda de bambu coberta de plástico, do tamanho de uma mesa,  sentados em um pedaço de papelão com 3 livros abertos, fazendo a tarefa da escola. E eu não consigo nem lembrar quantas vezes por semana eu reclamo de ter que ir pra minha faculdade e ficar quatro horas em uma sala com cadeiras almofadadas, ar condicionado e internet wireless....

Chegando ao assunto, mesmo pertencendo ao Brasil “ um país de todos”, eu nunca vi um lugar que realmente pudesse definir diversidade, até 3 semanas atrás.
Todos dizem que o Brasil é um país amigável, aberto a diversidade, com liberdade política e religiosa. E toda vez que encontramos uma pessoa com opinião, religião, crença ou gosto diferente dos nossos batemos no peito para dizer que aceitamos diversidade e no segundo seguinte estamos tentando provar, a todo custo, o quando o nosso ponto de vista é melhor ou mais correto, e o quando a outra pessoa tem a aprender conosco. Mesmo quando encontramos alguém com os mesmos gostos que os nossos, usamos isso como uma valiosa oportunidade de ressaltar o quanto corretos estamos e ter mais alguém para dividir nossas criticas a respeito “dos outros que são diferentes”. Em maior ou menor grau, maior ou menor consciência, todos fazemos, você faz, eu faço.

E assim que vim pra cá, com todos os argumentos para defender meus pontos de vista, e até agora não precisei usar nenhum.  Diversidade é entrar em uma classe e ter alunos me perguntando sobre Cristianismo, me explicando Hinduísmo, ou mesmo, sendo Hindu, mas me explicando sobre os festivais Mulçumanos porque o colega mulçumano não consegue responder minha dúvida em inglês.
A maioria dos Hindus não come carne. Dizem que em um mundo com tanta oferta de alimentos, não há motivos para tirar a vida de outro ser vivo somente para satisfazer nossos desejos. Alguns comem frango, peixe e/ou carneiro, mas não carne de vaca, pois a vaca é um animal sagrado. Segundo eles a vaca é a representação de toda a vida na terra e não há razão para se tirar a vida de nenhum ser vivo. Além disso, a vaca nos da leite, uma das principais bases alimentares na Índia, junto com a lentilha e batata. Então dizem, porque tirar a vida de um animal que nos da tanto sem pedir nada em troca?

Todas as vezes que estou conversando com algum indiano sobre comidas, ou em algum restaurante me perguntam se eu como carne, eu digo que sim e eles me mostram os melhores pratos com carne (peixe, frango ou carneiro) no cardápio, ou me falam quais pratos indianos e não vegetarianos eu deveria experimentar na Índia. Se eu pergunto: e você? Come carne? Me respondem sim ou não e sorriem. Tente ter esse tipo de conversa com um vegetariano no Brasil... e depois me contem o quanto aberto a diversidade nós somos...

Expliquei como os casamentos funcionavam aqui, que não eram arranjados. Quando terminei me disseram: que interessante, você quer saber como funciona aqui? Me perguntaram como funcionava Deus ou Deuses no cristianismo e a questão dos Santos, eu expliquei, e me disseram: aqui veneramos mais de um Deus, quer que te contemos as histórias?  

E o mesmo com todos os outros assuntos que foram tratados, me disseram, a sociedade aqui, embora não mais legalmente é dividida em castas, é um grande problema pro nosso país, e no seu país, como é a estrutura social? Não existe certo ou errado, atrasado ou adiantado. Existe minha cultura, a sua cultura e vamos aproveitar o nosso tempo juntos para dividir o máximo de conhecimento que podemos e não discutir qual é o melhor país para se viver no mundo. Temos a mesma opinião em um assunto?! Vamos para o próximo, rápido, rápido! Eu quero ouvir o que de diferente você tem a me dizer.

Ouvir sem fazer criticas e sem tentar defender nosso ponto de vista a todo custo em discussões sobre sociedade, meio ambiente, relacionamentos, religião, política, educação, ainda está longe de ser realidade para nós  do “ País de todos”.

Vamos começar aceitando diferenças simples. Eu gosto do feijão por cima do arroz e de dormir sem meias. E você, o que tem a me dizer?


terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Ano novo!

Por pouco pensei que iria abandonar o blog mais uma vez! Mas como prometi, voltei para escrever...
A semana depois do Natal não foi muito agitada, então não tinha muito para escrever, e de Sexta para hoje, foi muito corrida, então não tive tempo!
O escritório do meu trabalho mudou para a sala ao lado, agora temos uma sala de aula maior, eba! E mais uma nova menina na classe ( pra compensar as outras 3 que nunca aparecem).



A foto é na sala velha ainda, ensinando os meninos a dar nó em gravatas.


Na Sexta feira saímos com alguns amigos indianos, entramos de graça em ma balada bem cara (por esse motivo não tava cheia) mas foi legal, aprendemos as últimas tendencias da dança indiana! haha
No sábado eu não trabalhei, passamos o dia no Museu de Kolkata, é um museu de Ciência, é legal,mas muito grande e estávamos cansados por causa do dia anterior, não aproveitei muito! Indianos pagam 10 rupias para entrar, estrangeiros 150 e ainda queriam mais 50 rupias por câmera para podermos tirar fotos... falei que não iria tirar, mas tirei mesmo assim!


Almoço indiano ( Chicken Briany)


Voltamos para casa e nos preparamos para o Ano Novo, o plano era ir para a escola de um dos projetos, ver a apresentação de fim de ano das crianças, ficar lá com os adultos até a virada e depois irmos para alguma festa da cidade com os indianos. Como a noite tava bem monótona eu escapei do evento com o pessoal da Aiesec, viemos pra casa jantamos, conversamos, bebemos e passamos a virada juntos. Foi uma das minhas mais divertidas viradas de ano!






A internet tinha parado de funcionar b, não consegui falar com a minha mãe nem meu amor! Mesmo assim fique feliz em saber que os tenho me esperando para esse novo ano.
No domingo não fiz muito, dormi na outra casa dos estagiários ( por sinal, mudei pra cá ontem, assim não passo o dia todo sozinha em casa mais e o bairro aqui é bem mais simples e muito mais Índia, bem com eu queria).
No domingo a noite pegamos comida em uma das bibocas indianas, arroz com legumes e frango, eu tinha comido no mesmo lugar no meu segundo dia aqui. Voltei pra a antiga casa e passei a noite toda tendo uma conversa agradável com a privada, nunca achei que fosse possível uma pessoa vomitar tanto! rs
Jurei pra mim mesma que eu nunca mais comeria comida indiana, acordei (ou melhor, tirei o pijama, porque não tinha dormido) e fui trabalhar.
Tivemos festinha de comemoração do Ano Novo depois do trabalho, com direito a muita comida indiana, comi sem problemas! 
Experimentei algumas frutas novas, nem sabia que existiam... alguma coisa parecida com pera, mas branca e com um leve gosto de maça ( chamam de starapple aqui)  e outra que parece uma batata por fora, um caqui marrom por dentro e é bem doce (gostaram da minha descrição?).
Hoje, já devidamente instalada na nova casa, fui trabalhar e consegui fazer todo o percurso de ida e de volta sem me perder, já estou dominando a Índia ( tá bom!). O Andy, canadense mas originalmente da China chegou aqui no sábado e como ele não trabalhava hoje, foi comigo no meu trabalho. Os alunos adoram conhecer estrangeiros, eu fui a primeira que eles conheceram mas agora toda vez que algum dos estagiários  tem o dia livre eu tento leva-los lá. Os alunos ficam realmente felizes de ver que eles tem capacidade de conversar em inglês com pessoas de outros lugares do mundo e principalmente os que não tem Inglês como primeira língua. É algo como " Olhá só, temos a mesma idade, ou sou até mais novo(a) meu inglês não é fluente, eu tenho sotaque, falo com erros gramaticais e mesmo assim atravessei o mundo e estou aqui, trabalhando e me virando. Vocês são mais do que capazes de fazer o mesmo."
O progresso deles é enorme, principalmente quando a professora não está por perto e eles não tem medo de errar. Hoje conversamos até mesmo sobre a questão do preço do petróleo e a OPEP e eles conseguiram se expressar muito bem ( pelo menos a maioria).
Almoçamos em um restaurante bom ( ainda não sei se sobrevivo a comida de rua mais uma vez) comemos arroz e peixe e voltamos para casa. No caminho paramos em uma farmácia, meu nariz ta horrível depois que fiquei gripada e a poluição aqui não ajuda. Pedi remédio pro nariz, em inglês e usando gestos. O senhor falava um pouco de inglês e começou a me perguntar milhões de coisas, então ele mediu minha pressão, minha temperatura, examinou minha garganta, ouvidos, meu nariz, o meu pescoço e ouviu minhas costas mesmo eu dizendo incansavelmente : eu estou bem, só preciso do remédio. Por fim comprei o remédio e voltei para cara, rindo muito.
As paredes do novo apartamento:







 Por hoje é só pessoal, prometo que escrevo com mais frequência.
E para quem me pergunta sobre como estão as coisas aqui eu digo: está sendo a melhor experiencia da minha vida!
Namaste dadas e didis!


domingo, 25 de dezembro de 2011

Então é natal, e o que você fez?!



O fim de semana foi legal, agora que tenho internet e já consigo andar sozinha pela cidade então estou começando a ter mais noção de tempo e estabelecer minha rotina.
No sábado levei os russos comigo para o trabalho, eles estavam perdidos e não teriam o que fazer em casa então fomos juntos. Eles ficaram bem assustados, a parte da cidade onde eu trabalho é bem mais pobre do que a parte que moramos.
Embora a maioria dos alunos seja Hindu ou Mulçumana, todos comemoram o Natal aqui ( na escola onde o Matheus e a Anastácia trabalham, os alunos comemoram todos os feriados de todas as religiões). Isso é mais uma das coisas que me surpreenderam na Índia, não importa a sua religião, a sua seita, qual Deus ou Deuses você acredita, tem espaço para todo mundo.
( essa é a a "mãe"  das Igrejas da diocese das igrejas do norte da Índia. Essa e a casa de Deus e a casa da prece. Todos são bem vindos para visitar e fazer suas preces aqui. Pedimos que trate a  Igreja e os arredores com o devido respeito)
                                                         (que a paz prevaleça na Terra.)
Grande parte dos meninos voltaram para suas vilas de origem para “celebrar” o natal com as famílias e a aula só teve 4 alunos.  Como as professoras não estavam a fim de dar aula e só tinham poucos alunos acabamos ficando conversando pelas 4 horas.  Durante a manhã toda, os alunos não pararam de perguntar sobre a Rússia para a Anna e o Alexy. Quando eu cheguei aqui, 2 semanas atrás, eles não me perguntaram praticamente nada, e com muito esforço, responderam as minhas perguntas. É incrível ver a evolução deles em tão pouco tempo.
Os russos ainda não falam inglês de uma forma entendível, além do sotaque. Meu sotaque também é muito forte, e os meninos estão aprendendo agora. Mas conversamos sobre economia, politica, eles me explicaram como a mudança de governos há 3 décadas atrás tirou o inglês da grade obrigatória de escolas públicas ( foi recolocado 1 ou 2 anos atrás) e como isso afetou a geração deles.
Depois da aula, fomos almoçar. Comemos na rua, comida típica indiana, com direito a usar as mãos para comer e muita pimenta. Depois fomos de metro para o New Market ( nunca fiquei em um lugar tão lotado em toda a minha vida), trocamos o dinheiro dos russos e eu comprei o presente do meu amigo secreto.  Voltamos para casa de taxi, nunca imaginei que em 2 semanas iria conseguir andar sozinha em Calcutá.
A noite todos os estagiários da AIESEC se reuniram aqui em casa para comemorarmos o Natal. Éramos em torno de 30, tanto os do estágio voluntario como do profissional, tomamos algumas cervejas ( 5 garrafas dividido por 20 = é muito difícil de achar bebida na Índia)  e pedimos pizzas.
O pessoal aproveitou bem a festa, eu aproveitei do meu jeito, conversando com uma menina da África do Sul, uma da Romênia e um cara da Tunísia durante toda a noite, foi legal, novas pessoas, novas formas de pensar. Como a gripe realmente me pegou, fui dormir logo depois que eles foram embora.
Hoje foi o primeiro dia que não tive compromisso pela manhã e consegui dormir um pouco mais. Acordei por volta das 10, nos arrumamos e fomos ver alguns pontos turísticos da cidade. Fomos ao templo da Deusa Kali, a Deusa da fortuna. O lugar é bem pobre, pessoas, cachorros e cabras vivendo juntos pelas ruas.



Para entrarmos no templo tivemos que tirar os sapatos, andar por varias ruelas e ficar mais de uma hora na fila, o calor, o barulho e o cheiro são muito fortes, e mesmo assim nada tira a expressão de paz e tranquilidade dos indianos. E não falo só de adultos, as crianças e até mesmo os bebes, por horas nas filas, calmas e sem reclamar.
Tinham muitas pessoas, mas o templo em si á uma salinha apertada, 4x4 metros, com a imagem da Deus no meio, passamos por lá em fila, doei um pouco de dinheiro para o templo (eles alimentam mais de 2 mil pessoas por dia lá) e fomos embora.
Voltamos para casa, pois teríamos um evento para ir, chama-se projeto Sun Shine( apoiado pela AIESEC), são vários músicos e DJs que fazem parte do evento e todo o dinheiro é doado para caridade. Quando chegamos lá, o evento estava sendo realizado em um espaço do exército da Índia e seguindo as normas do país não pudemos entrar, pois somos estrangeiros.
Agora estou em casa, esperando um pessoal chegar para irmos jantar. Espero ter mais coisas interessantes para contar essa semana e mais animo para escrever também. Sai de mim gripe!
    (vestidas pro casamento indiano)

Feliz natal a todos.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Casamento indiano e um desabafo.

Antes de começar o post queria fazer um desabafo. Vi um monte de gente que tá aqui na índia reclamando do pais, do lugar, do trabalho.
A primeira coisa que nos torna seres racionais é a capacidade de tomar decisões. Mas a principal coisa que nos torna homens e mulheres é a capacidade tomar decisões, ser responsável por elas e arcar com as consequências. Reclamar das próprias escolhas é a forma mais estúpida de admitir imaturidade e ignorância perante a vida.
Se você escolhe sair do conforto da sua casa, gastar dinheiro, e fazer alguma coisa diferente, a primeira coisa (inteligente) a ser feita é pesquisar sobre o lugar, e ponderar as escolhas. A partir do momento que nos submetemos a uma situação como essa, onde todos estão aqui por vontade própria, por que inventar tantas desculpas e problemas para não aproveitar esse precioso momento?
Fazer trabalho voluntário na Índia soa quase melódico. Por mais utópico que isso pareça, eu não vim aqui para poder contar aos meus amigos que vi os lugares que passaram na novela “Caminhos da Índia”. No Brasil as pessoas também precisam de ajuda, eu tenho certeza que se eu tivesse doado o valor da minha passagem para uma instituição de caridade eu teria ajudado muito mais do que o que eu estou fazendo aqui. Eu vim aqui porque eu quero ser uma pessoa melhor, eu quero entender diversidade, eu quero descobrir meus limites, eu quero ver do quanto eu sou capaz. E então, voltar ao Brasil, voltar a fazer o bem ao próximo e me doar de uma maneira que eu só vou conseguir depois de passar por aqui.
Infelizmente, o amadurecimento e a doação ao próximo de alguns aqui tem passagem comprada de vinda e de volta. E mesmo assim, parece que nesses 2 ou 3 meses eles estão sendo obrigados a estar aqui.
A comida aqui é sim muito apimentada, estou com fome desde que cheguei. A cidade é suja, o cheiro é péssimo, o transito e o barulho insuportável. Uma casa onde caberiam 7 pessoas está suportando 11, a geladeira não funciona, está muito frio e não temos cobertores nem agua quente nos chuveiros. Eu estou aqui porque foi minha escolha, posso voltar na hora que quiser, é assim que funciona. Minhas escolhas, e como eu me orgulho de dizer que em momento nenhum, me arrependo delas.
(vista da sacada de casa)
Voltando as nossas histórias.
A aula na quarta foi ótima. Estou conversando mais com a diretora, ela apoia meu método de ensino, e a professora está me deixando muito mais tempo sozinha com eles. Embora eu tenha que fazer algumas atividades que não goste ( nem eles) como os ditados, agora estou colocando eles para ditar pra eles mesmos. Estão adorando, até brigam para ver quem vai falar. No caminho de ida vi alguns cachorros mortos e corvos comendo pedaços dos ratos amassados pelos carros na rua, bem chocante.
Na quarta a noite ficamos sabendo que ontem teríamos um casamento indiano para ir. Sai da aula, voltei para casa e fui com o português para o New Market procurar roupas para a festa. Não tínhamos muito tempo, procuramos um pouco, achamos alguma coisa e voltamos para a casa.





O casamento era do filho de um governador do Estado, na verdade fomos á recepção depois do casamento ( que tinha sido no dia anterior) e eles eram mulçumanos então a festa não era tipicamente Indiana. Tinham mais de 3 mil pessoas, e a festa foi em um dos hotéis da família, um lugar enorme, com lagos e muita, muita comida. Chegamos lá, fomos apresentados para todas as pessoas possíveis, comemos e voltamos para casa.
Embora eu estivesse muito empolgada para ir ao casamento, uma coisa que aconteceu antes acabou com a minha noite. Fomos avisados para comprar flores para levar na cerimonia, compramos algumas rosas e fomos de taxi até o lugar onde o diretor da escola de alguns estagiários nos buscaria para irmos pro evento ( ele que nos convidou). O lugar era uma dos bairros pobres, fomos para lá de taxi e enquanto esperávamos pensamos que talvez as rosas não seriam apropriadas e que iriamos comprar um arranjo então decidimos dar as rosas para as crianças na rua.
Como sempre, todos estavam olhando para nós, eles não estão acostumados com estrangeiros. As crianças ficaram envergonhadas e não quiseram as flores. Perto de nós tinham um homem sentado na calçada, de cócoras, como eles sentam aqui. Ele estava lá sentado, quase sem roupa, olhando para o nada, com a expressão de paz que só os indianos têm, a noite estava fria e a calçada molhada. Falei que podíamos dar as flores a ele, oferecemos, ele não entendeu, não sabia se aceitava ou não, no fim pegou as flores. Sem nenhuma palavra, durante os 15 ou 20 minutos que ficamos lá esperando pelo carro ele olhava para as flores, sorria e as cheirava, colocando delicadamente no colo, e depois as alisava e sorria de novo, e assim por todo o tempo que ficamos lá. O resto dos estagiários estava conversando e tirando fotos, nem perceberam. Mas desde ontem não consigo tirar a lembrança da minha cabeça.
Acordei cedo hoje para preparar minha aula, a aula foi legal, os alunos estão se soltando cada vez mais. Voltei para casa, estava com sono atrasado (por causa do casamento) e doente. Queria dormir mais chegou um casal russo para o estágio profissional e o pessoal da AIESEC esta viajando em conferencia. Aqui em casa não cabe mais nem uma formiga, e não sabíamos eu eles estavam vindo, então todo mundo estava “puto da vida”. Eu fiquei com dó e fui leva-los para comer, comprar coisas no mercado e tudo mais. E ainda tive que ouvir o comentário deles de que eles queriam fazer o estágio voluntário também, mas na Europa, por que os indianos são muito pobres e sujos.
Fomos convidados pra mais dois eventos hoje, metade do pessoal já foi, os russos estão dormindo e a outra metade vai daqui a pouco. Estou doente e casada, por hoje fico aqui!

Beijos

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Comida indiana e perdida na Índia


Vou falar um pouquinho do meu dia ontem e hoje, tenho bastante fotos e vídeos.
Ontem fui para o trabalho, cheguei mais cedo, conversei um pouco com o Animish, um dos alunos. Tivemos a primeira parte da aula, conheci mais um novo aluno que estava ausente na última semana por que tinha voltado para a sua vila para ajudar na época da colheita. A diretora comprou um mapa mundi ( como eu tinha pedido), alguns dos alunos não sabiam achar Kolkata na Índia mas maioria tinha uma boa noção. Enquanto eu explicava para eles sobre o descobrimento do Brasil (como os portugueses se confundiram achando que aqui era Índia e tal) um dos alunos levantou e falou pra eu perguntar a capital de qualquer País. Eu perguntei a capital do Japão, ele levantou, foi no mapa, me mostrou a capital de cerca de 10 países diferentes, me falando os nomes de presidentes e explicando quais eram as capitais políticas e econômicas de cada um deles, fiquei realmente impressionada.
Como alguns alunos tinham testes, a professora deu um intervalo de 20 minutos. Os alunos desceram e contrariando a recomendação da professora de não ficar muito próxima dos alunos eu fui com eles. Eles foram na rua ao lado, para tomar chá. As ruas daqui são cheias de barraquinhas ( na verdade é no chão) com comida, chá e frutas. As comidas são servidas em folhas secas ( no formato de uma tigela) e os líquidos em copinhos de barro que depois são jogados no chão.
Os alunos me ofereceram chá, como a primeira regra para India é não comer nada na rua, eu neguei. Mas Indiano que se preza não descansa enquanto não faz a gente comer/beber o que oferece, e 2 minutos depois estavam me entregando o mais original chá com leite feito na rua (sem nenhuma higiene, claro) e no copinho de barro. Bebi o chá, ao mesmo tempo que pedia ao meu sistema imunológico com toda a minha força para não ficar doente. Era gostoso, afinal.
Voltamos para a aula, estávamos conversando sobre religiões e paz na índia e um dos alunos pediu para me falar uma frase do Dalai Lama:

“Cuide dos seus pensamentos na medida em que eles se tornam palavras;
Cuide das suas palavras na medida em que elas se tornam ações;
Cuide das suas ações na medida em que elas se tornam hábitos;
Cuide dos seus hábitos na medida em que eles se tornam seu caráter;
Cuide do seu caráter pois esse formará o seu destino;
E o seu destino, será a sua vida”

Na saída os alunos me perguntaram sobre o dinheiro do Brasil e eu mostrei as nossas notas. A professora perguntou se eu queria almoçar com ela, fomos a um lugar ali perto e tivemos uma comida típica daqui que eu não lembro o nome, são batatas cozidas com massala (temperos e pimenta)  e alguma coisa que parece pastel, ai servem em uma bandeja e em pé  você segura com a mão esquerda e come com a direita. Uma prova de coordenação!
Voltei para casa, dormi um pouco e depois buscamos comida em um restaurante diferente do que estamos habituados. Muita, muita pimenta. Era um macarrão com vários legumes, e um arroz com legumes também, almondegas vegetarianas e um queijo branco ao molho. Consegui comer todo o arroz e o macarrão, e fiquei com a boa ardendo por mais de 2 horas. Compramos alguns doces daqui também, todos tem o gosto parecido, são feitos de leite qualhado e alguma coisa que tem o mesmo gosto do tempero das comidas, mas doce.
Hoje acordei mais cedo, achei que fosse morrer até aquela comida toda sair de dentro de mim. Tirei varias fotos do prédio e das ruas aqui, estão logo abaixo, fiz alguns vídeos do transito também.
Nosso apartamento: 







Nada melhor para despertar do que a adrenalina de andar em um Auto Rick-shaw as 8 horas da manhã. Na verdade atravessar as avenidas sem sinaleiro e sem faixa de pedestre é muito mais emocionante, mas eu não consegui filmar e continuar viva ao mesmo tempo, então por hoje vai o vídeo do transito mesmo.



Cheguei mais cedo na escola, então fui a um café americano que tem ali por perto, o lugar é bem caro (nem sei como sobrevive em um lugar pobre como aquele) e pedi um super chocolate quente ( eu não sabia que era enorme até chegar). Do outro lado do café tinha uma mesa com 2 Indianas e um Indiano, que 5 minutos depois do meu chocolate chegar veio na minha mesa puxar assunto. Como eu não estava a fim de conversa furada, terminei o meu chocolate o mais rápido que pude e fui pra escola. A diretora estava tomando o café da manha dela, um monte de xuxu cozido com todos os temperos indianos possíveis, e como eu disse anteriormente, ela não sossegou enquanto eu não comi com ela. Uma bela forma de começar o dia, Chocolate quente e xuxu cozido.
Na escola conheci mais 3 alunos, um homem que não falou muito e 2 meninas, agora a Taslima não está mais sendo a única menina da sala. Fiquei a maior parte do tempo conversando sobre o Brasil com a diretora, não passei muito tempo na sala. O índice de falta as aulas é muito grande, eles tem que fazer provas da faculdade, trabalhar, ajudar a família. É uma pena, o curso é bem caro para eles.
Algumas fotos da rua do escritório, do prédio e deles:







Na saída um dos alunos, O Farujk estava esperando os outros meninos e conversando com a Taslima (em bangoli) e ele é um dos que menos sabe Inglês na sala e fica muito, muito nervoso quando tem que falar. Eu passei por ele e brinquei “ Olha só Farujk, você conversando, tem que falar bastante assim na aula também!” E não é que ele sabe falar Inglês, o menino desembestou a falar ( eu entendi só metade) e só parou quando terminamos de andar pela avenida e tomamos caminhos diferentes.
Eu estava procurando pelo Auto que tenho que pegar, perguntei “Baligunge?” e o motorista concordou, entrei e depois de uns 15 minutos percebi que não estávamos indo para o lugar que eu esperava, ele provavelmente entendeu errado. Como eu não sei falar nem pare em Hindi, fui até a rota final, um subúrbio onde, acho eu, que nunca tinham visto um estrangeiro.  Muitas encaradas depois consegui achar o Auto de volta pro lugar que eu tinha saído, pra tentar achar o  Auto certo mais uma vez.
Estar perdido em uma cidade com 14 milhões de habitantes não é nada legal, especialmente se ninguém te entende e você não sabe seu endereço ( por que as ruas não tem numero nem nome, eu só sei chegar na rota e depois andar até o apartamento).
O segundo Auto me levou para o bairro que eu queria mas realmente longe do lugar onde eu poderia encontrar qualquer meio de locomoção de volta para casa, e como a comunicação é impossível, não restava nada a fazer.
Consegui um taxi, ele também não falava inglês e não conseguia entender minha pronuncia do lugar que eu queria ir. Depois de muito esforço ele entendeu, me trouxe no meu bairro mas não entendia que eu queria continuar a corrida (porque eu estava há mais de 40 minutos andando de casa).
Liguei para a Ajay da Aiesec, pedi (em inglês) para ele explicar em Hindi ( ou Bangoli, a essa altura do campeonato já não me importava mais) como chegar em casa. Como desgraça pouca é bobagem, ele não entendeu de novo e quanto estávamos suficientemente perto e desci e vim andando. Uma hora e meia depois e 68 rúpias (R$2,50) eu estava em casa.
Achei um lugar que vende rolls ( tipo uma massa de panqueca enrolada com recheios) e não são apimentados. Comprei um de frango com ovo ( segunda vez que como frango desde que cheguei aqui). São bons, vamos ver amanha se o meu sistema imunológico acha o mesmo.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Um pouquinho mais sobre meu trabalho


Hoje é segunda-feira, e enfim consegui escrever sobre tudo que se passo aqui. São tantas coisas acontecendo que não quero perder nenhum detalhe.
Acordei por volta das 7 da manhã, sou a primeira a acordar na casa, o meu trabalho é o que começa mais cedo. Não tomei banho porque está muito frio e não temos agua quente. O Eduardo que está aqui é americano mas mora em Portugal, ele tinha comprado cereal e pela primeira vez desde que cheguei aqui comi alguma coisa sem pimenta.
Sai para trabalhar, tenho que andar cerca de 20 minutos, então eu pego um Auto rick-shaw e depois ando por mais 15 minutos no lugar em que acaba a rota. As únicas coisas que sei falar em Hindi são Hazara ( que é a estação que eu ir) Baligan je phadi ( que é a estação que eu tenho que voltar) e Gurusaid Road que é a rua principal perto do apartamento. De resto não entendo nada do que os motoristas falam ou perguntam, passo o tempo todo respondendo com o endereço que quero ir seguido de “ eu só falo inglês”  até agora tem funcionado, um dia, quem sabe, eu entenda o resto.
Os indianos não estão acostumados a ver estrangeiros aqui, por onde vou, principalmente quando estou sozinhas, eles ficar olhando sem parar. Aqui eles não tentam puxar assunto e os olhares não me incomodam, ao contrario dos outros estagiários eu adoro sair do apartamento e ir andar e ver o que acontece nas ruas. Em restaurantes, na casa dos indianos, na portaria do prédio ou mesmo no lugar onde eu trabalho existem os serventes, as pessoas das castas que fazem os serviços de limpeza e servem aos indianos das castas superiores  ao contrario do que acontece aqui eu sempre peço por coisas usando por favor e obrigada e dou bom dia, oi e tchau, e eles sorriem para mim o tempo todo. Hoje durante o trabalho o Dipak (servente do escritório) me levou chá com leite 2 vezes, mesmo sem eu ter pedido e também uma garrafa de água. Quando eu fui levar as xicaras e a garrafa de volta para a cozinha eles ficou desesperado e tirou da minha mão, dizendo alguma coisa como “ não, não,  não senhora” ( ele não fala quase nada em inglês), a diretora falou que eu não precisava fazer isso, eu respondi dizendo educadamente que independentemente do que ela falasse eu iria fazer, sorri e continuei andando.
A aula foi legal, meus recursos ainda são limitados porque não tenho internet e eles não tem material didático lá, mas em menos de uma semana eu já vejo os alunos progredindo. Agora que estou acostumando com o estereótipo indiano fica mais fácil de lembrar os nomes  e as personalidades deles.
A professora Indiana, claramente tem outra metodologia de ensino, como eu já disse anteriormente. São gritos, humilhação ( como a bronca que ela deu em um dos meninos hoje por ele não estar de sapatos fechados. Ela perguntou se ele tinha sapatos, ele falou que sim, mas com toda certeza, se ele os tivesse ele não estaria de sandálias, pelo menos não com o frio que estava hoje) e repetições.
Eu não concordo, e não faço questão nenhuma de esconder, a classe está uma bagunça com as cadeiras em circulo, eles não levantam mais para responder as questões eu vou até a cadeira deles e abaixo para manter contato visual e eu pedi que não me chamassem de senhora. Porém, os mesmo alunos que há 5 dias atrás não conseguiam responder perguntas como “qual é seu nome e de onde você veio” agora brigam entre si para ver quem vai me responder primeiro quando pergunto sobre política, economia, ou qual é o objetivo deles para o futuro. O inglês pode não ser o mais claro e fluente do mundo, mas com ajuda dos colegas que sabem um pouco mais ou tem uma melhor pronuncia eu sempre entendo.
Hoje, antes de a aula começar, os 2 alunos que falam melhor vieram me perguntar como eu ensino no Brasil, se eu também uso a mesma metodologia que a professora deles, eu falei que não que eu não acho que repetição é uma boa forma de aprendizado, que na minha opinião eles deveriam responder o que  tinham entendido dos textos e não decora-los para repetir (como a professora exige). Eles disseram que pensavam o mesmo, e como eu sabia que ela estava do lado de fora da sala e provavelmente ouvindo eu falei para eles que eles deveriam perguntar isso a ela e pedir que ela explicasse o porquê da metodologia dela e eles expusessem a opinião deles.
Eles perguntaram e provavelmente foi a primeira vez que ela foi questionada por um aluno. Ela explicou o porque usa repetição ( que foi assim que ela aprendeu na escola há décadas atrás etc etc). Coincidência ou não, não tivemos mais repetição por hoje.
Eu fico bastante tempo sozinha com eles na sala, mas algumas vezes a professora volta para a sala para fazer as atividades dela, embora ela não pareça muito feliz com a minha presença, ela também não está pedindo para eles levantarem mais e os gritos e repetições parecem estar diminuindo, hoje ela até mesmo aplaudiu alguns deles depois que eles falavam. Eu não gosto de julgar culturas, eu sei que todas as escolas (seja para crianças ou para adultos como a minha) trabalham desse forma, mas respeitosamente eu estou mostrando uma outra possibilidade. Se ela realmente entender como essa forma de motivação e ensino pode ajudar (não só ela, mas os 4 ou 5 alunos na sala que são professores também), ótimo, se ela só estiver fazendo isso enquanto eu estou aqui para não batermos de frente vai ser triste, mas eu quero fazer de tudo para que, pelo menos, esses meninos/homens que eu conheci, tenham um futuro melhor.
Eu falei para eles semana passada que quando eles tivessem se apresentando em entrevistas de emprego eles deveriam dizer no que eles eram bons. No começo eles não conseguiam dizer nada, diziam apenas o nome, da onde tinham vindo e o nome da escola que estudaram. Depois de muito aperta-los, hoje eu tive homens ficando de pé, sem tremer, sem gaguejar e falando não mais que eles não sabiam falar inglês e sim que eles  eram formados e direito, bons com matemática, especialistas em computação, capitães dos times de críquete .
Hoje um novo aluno entrou no curso, ele não estava apavorado igual aos outros quando cheguei aqui, ele saiu da aula sorrindo e conseguiu entender quando eu perguntei e ele tinha gostado da aula, a resposta foi um sim ( na verdade eles falam tão baixo que eu não consegui ouvir, mas o sorriso dele não deixou dúvidas). Mais um dos meninos contou que teve que parar a faculdade por não ter dinheiro. Não existe contato físico entre homens e mulheres aqui, mas todo dia eu tenho vontade de abraça-los e dizer que tudo vai ser melhor um dia, na verdade eu gostaria de ter certeza que essas pessoas tão especiais que já mudaram minha vida, vão um dia, ter um futuro melhor...

Fim de semana e introdução a realidade.


No sábado acordei e fui trabalhar sozinha, já estou ficando boa em achar os caminhos nessa cidade enorme. Mais uma vez meus alunos me esperavam com sorrisos para iluminar meu dia, no sábado não são todos que vão a aula, a sala tinha em torno de 15 deles.
A professora Indiana me deixou varias vezes sozinha com a classe, e em uma dessas horas 2 dos alunos pediram pra falar e disseram gaguejando com um inglês carregado de sotaque e algumas palavras em Bengoli (os colegas ajudavam a traduzir) “ muito obrigada senhora Juliana por ter vindo aqui e nos ajudar a construir nosso futuro”. Com os olhos cheios de lagrima, continuei a minha aula.
A professora fez alguma das atividades de repetição e ditado dela e no fim da aula, enquanto saímos um dos alunos que consegue falar melhor puxou um colega e veio me falar Obrigada em português, dizendo que pela primeira vez eles estavam se sentindo confortáveis em falar inglês e que não tinham medo de errar comigo.
Com meu dia realizado, mais uma vez, voltei para casa e por volta das 5 fomos para o hotel da festa, nos preparar para o trabalho. Nos trocamos e fomos para os nossos postos, meninos na recepção e meninas entregando um shot de vodca e um pedaço de Chille, os convidados tinham que morder a pimenta e virar a vodca. Muito poucos aceitavam a bebida, alguns perguntavam se éramos russas, mas tinha um segurança para não deixar ninguém conversar conosco.
Quatro horas depois, muito cansados e com 3 mil rúpias no bolso voltamos para casa. Alguns ficaram na festa mas a última coisa que quero fazer aqui é ficar até tarde fora de casa e estragar meus dias que tem sido tão maravilhosos.
No domingo, acordamos por volta das 8 e fomos ver a apresentação de final de ano de um projeto parceiro da Aiesec. São escolas para meninos e meninas desprivilegiados que ensinam cultura, musica, dança, teatro, entre outros além das meterias normalmente aprendidas na escola.




Eram mais de 100 crianças, alguns muito novos, mas é difícil de dizer a idade, a desnutrição das crianças pobres aqui faz com que crianças de 8, 9 anos pareçam ter 4 ou 5. O dia estava muito frio, eles vestiam shorts ou saias, alguns com casaco e a maioria com sandálias. Enquanto assistimos as apresentações eles permaneceram sentados no gramado, enfileirados e quietos.
Por onde íamos as crianças nos olhavam, vinham perto, queriam conversar, mesmo não falando inglês. Tiramos algumas fotos, eu já tinha ouvido falar e agora tenho certeza, os olhares das crianças indianas são incríveis.  
Depois disso comemos com as autoridades, o bairro onde estávamos é bem mais pobre que o nosso, as casas muito simples, as pessoas descalças no frio entre ratos e porcos pelas ruas. 



Fomos ao New Market (bairro para se fazer compras, parecido com a 25 de março) comprei algumas roupas, bijuterias e lembranças.  Eles tentam cobrar 10, 20 vezes mais do que o valor real por sermos estrangeiros, mas a Rose (da Nova Zelândia) estava conosco e ela é originalmente da Índia e consegue falar alguma coisa em Hindi então conseguimos preços bons.
Embora tenha sido uma tarde legal eu não voltei feliz para casa, a realidade que vimos no mercado me deixou muito chocada, saber que eu não posso fazer nada por aquelas pessoas me traz um sentimento tão ruim que não sei como explicar. Enquanto comprávamos, passávamos pelos “underpeople” como eles chamam aqui, ou a classe dos intocáveis, eles não podem falar com os indianos, mas falam conosco estrangeiros a procura de dinheiro. As crianças, praticamente sem roupas, vivendo entre cachorros sarnentos e latas de lixo vinham até nós para pedir comida, e se ajoelhavam e tocavam nossos pés como sinal de respeito. Fomos orientados a não dar nada a eles, primeiro por que o sistema social não permite e segundo por que são muitos, se dermos para um ou dois todos os outros vão vir atrás de nós. Eu estava desesperada e peguei as bolachas que tinha na bolsa para dar a uma das crianças, mas quando vi o “dono” ou adulto que os obriga a fazer isso estava esperando alguns metros de distancia e preferi seguir as instruções, então continuei andando.
Voltamos para casa, estava cansada e me sentindo um pouco doente, esta muito frio aqui, fui dormir cedo.